O protocolo BGP, que sustenta as rotas de toda a internet mundial, foi concebido originalmente com base em uma premissa de confiança mútua irrestrita, o que historicamente abriu margem para sequestros de rotas (BGP Hijacking) e vazamentos acidentais de prefixos capazes de desviar tráfego de bancos e serviços essenciais. A tecnologia RPKI (Resource Public Key Infrastructure) ajuda a mitigar essa vulnerabilidade estrutural ao introduzir certificados digitais criptografados que atestam, por assinatura digital, qual Sistema Autônomo tem autorização legítima para anunciar cada bloco de endereços IP. Implementar RPKI e filtros rígidos de prefixos é uma medida técnica indispensável para qualquer organização que opere com ASN próprio.
A anatomia de um sequestro de rota (BGP Hijacking)
No funcionamento tradicional do BGP, quando um roteador anuncia para seus vizinhos que possui o caminho para um bloco IP específico, os roteadores vizinhos aceitam esse anúncio sem checagem de propriedade e o propagam para o restante da internet.
Isso cria brechas críticas:
- Erros de configuração (route leaks): um operador, em outro país, configura mal os seus filtros e repropaga rotas além do escopo pretendido, ou passa a anunciar como seus os blocos de IP da sua empresa (origem indevida, parecida com um sequestro de prefixo). Em ambos os casos, o tráfego pode ser desviado.
- Ataques deliberados de sequestro: criminosos virtuais anunciam um bloco de IP com uma máscara de sub-rede mais específica (por exemplo, um prefixo
/24enquanto o anúncio legítimo é um/22). Pela regra da rota mais longa do BGP, o tráfego do mundo inteiro passa a ser direcionado para o servidor do invasor, permitindo interceptação de dados confidenciais ou interrupção completa de serviços.
Como o RPKI funciona na prática
O RPKI estabelece uma Infraestrutura de Chaves Públicas ancorada diretamente nos registros regionais de alocação de IPs (como o Registro.br no Brasil e o LACNIC na América Latina).
O sistema opera em duas frentes complementares:
1. Criação do ROA (Route Origin Authorization)
O detentor legítimo do bloco IP acessa o painel do registro oficial e assina digitalmente um documento criptográfico chamado ROA. O ROA declara explicitamente: "O bloco IP 203.0.113.0/24 só pode ser originado pelo ASN 65530, com comprimento máximo de máscara /24". Esse certificado assinado é publicado em repositórios públicos distribuídos e atualizados constantemente.
Essa proteção é igualmente indispensável para blocos IPv6 (RFC 6482). Ao assinar um ROA para o seu prefixo IPv6 alocado pelo Registro.br (exemplo: 2001:db8:cafe::/48 com comprimento máximo /48 para o seu ASN), anúncios espúrios ou vazamentos de prefixos mais específicos passam a ser classificados como Invalid, permitindo que operadoras e pontos de troca com validação ROV ativa descartem as rotas ilegítimas na internet global (veja o artigo Quando a empresa precisa de ASN próprio).
2. Validação de Origem (ROV — Route Origin Validation)
Os roteadores de borda de provedores e empresas em todo o mundo consultam servidores validadores locais que sincronizam esses certificados. Ao receber um anúncio BGP de uma rota, o roteador classifica o anúncio em três estados possíveis:
- Valid (Válido): o ASN de origem e o tamanho do prefixo coincidem perfeitamente com o ROA assinado.
- Invalid (Inválido): o anúncio conflita frontalmente com um ROA registrado (por exemplo, outro ASN tentando anunciar o mesmo IP ou anúncio com máscara proibida). O roteador descarta a rota imediatamente, impedindo o sequestro.
- NotFound (Não Encontrado): o proprietário do bloco IP ainda não gerou o ROA correspondente, de modo que a rota segue as regras tradicionais sem validação criptográfica.
Exemplo de configuração de validação no roteador de borda
Roteadores corporativos conectam-se a validadores RPKI locais (como Routinator ou StayRTR) via protocolo RTR (RPKI-to-Router):
rpki server 192.168.10.5
port 8282
refresh 3600
!
route-map BGP-IN deny 10
match rpki invalid
!
route-map BGP-IN permit 20Com essa política ativa, tentativas de anunciar seus prefixos de forma espúria passam a ser rejeitadas pelas redes que validam RPKI, hoje uma parte crescente dos grandes provedores.
A defesa em profundidade: Filtros IRR e MANRS
O RPKI é indispensável, mas atua em conjunto com outras camadas de segurança essenciais:
- Bancos de Dados IRR (Internet Routing Registry): registros textuais padronizados (como RADB, TC e Registro.br) onde as empresas documentam suas políticas de trânsito e listas de prefixos autorizados.
- Iniciativa MANRS (Mutually Agreed Norms for Routing Security): programa global de governança de segurança de roteamento que estabelece quatro pilares obrigatórios: filtragem rigorosa de prefixos, prevenção de spoofing com validação de endereço de origem (uRPF), coordenação facilitada de contatos técnicos e implantação ampla de RPKI.
Adotar esses mecanismos assegura que a sua infraestrutura corporativa não seja apenas uma consumidora da internet, mas uma cidadã digital responsável que fortalece a estabilidade da malha global.
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Para auditar o roteamento BGP da sua empresa, emitir seus certificados ROAs no Registro.br e configurar validação RPKI no seu roteador de borda, consulte nossas soluções na página de arquiteturas.
Fontes
- https://datatracker.ietf.org/doc/html/rfc6480 — IETF RFC 6480 sobre a arquitetura da Resource Public Key Infrastructure (RPKI) para segurança do roteamento. (consultado em 2026-10-05)
- https://datatracker.ietf.org/doc/html/rfc6811 — IETF RFC 6811 sobre validação criptográfica de origem de prefixo BGP (BGP Prefix Origin Validation). (consultado em 2026-10-05)
- https://registro.br/tecnologia/rpki/ — Diretrizes operacionais do Registro.br para geração de ROAs (Route Origin Authorization) no Brasil. (consultado em 2026-10-05)
- https://datatracker.ietf.org/doc/html/rfc6482 — IETF RFC 6482: A Profile for Route Origin Authorizations (ROAs). (consultado em 2026-10-05)