Quando a empresa precisa de ASN próprio

Atualizado em 16/10/2026

Ilustração de uma caixa de terminação de fibra óptica com conectores verdes na parede, ao lado de um rack de rede de escritório
Imagem ilustrativa

Uma empresa precisa de um Sistema Autônomo (ASN — Autonomous System Number) quando atinge um patamar operacional em que a indisponibilidade ou a troca forçada de endereços IP de conexões externas causa prejuízos financeiros severos. Com um ASN próprio e blocos de endereçamento IP alocados diretamente pelo Registro.br, a sua empresa passa a falar a linguagem de roteamento global da internet (protocolo BGP) e a anunciar seus próprios endereços para múltiplas operadoras simultaneamente. Isso reduz muito a quebra de conexões na queda de uma operadora, pois os mesmos endereços IP continuam respondendo pelo link secundário.

O que é um Sistema Autônomo (ASN)

A internet global não é uma rede única centralizada, mas uma teia gigantesca composta por dezenas de milhares de redes independentes chamadas Sistemas Autônomos. Cada Sistema Autônomo representa um domínio administrativo com uma política de roteamento unificada e possui um identificador numérico exclusivo (o ASN) reconhecido em todo o planeta.

Quando você contrata uma conexão comum de internet corporativa, a sua empresa é apenas uma cliente dentro do ASN daquela operadora, navegando sob os endereços IP dela. Se você contratar uma segunda operadora, terá dois blocos de IPs completamente distintos e incompatíveis entre si.

Ao se tornar um Sistema Autônomo independente:

  • A sua empresa recebe seus próprios blocos de endereços IP públicos (blocos IPv6 e frações IPv4 quando disponíveis pelas políticas vigentes).
  • Esses IPs pertencem à sua organização e não às operadoras contratadas.
  • Se você trocar de fornecedor de telecomunicações no futuro, não precisará reconfigurar um único endereço IP em servidores, regras de firewall ou túneis VPN.

Benefícios cruciais do BGP e ASN para negócios

Ter um ASN próprio abre vantagens estratégicas para empresas de médio e grande porte:

1. Redundância transparente de verdade (True Multihoming)

Com o protocolo BGP (Border Gateway Protocol), seus blocos de IP são anunciados para a internet através de duas ou mais operadoras ao mesmo tempo. Se uma retroescavadeira romper a fibra de uma das operadoras na avenida, os roteadores globais redirecionam os pacotes para a segunda operadora após a convergência do BGP (de segundos a poucos minutos), mantendo os mesmos endereços IP da sua empresa e permitindo que muitas sessões sejam retomadas sem renumeração.

2. Participação em Pontos de Troca de Tráfego (IX.br)

Empresas com ASN podem conectar-se diretamente aos Pontos de Troca de Tráfego (PTT / IX.br), trocando dados diretamente com servidores de gigantes da tecnologia (como Google, Microsoft, Amazon, Netflix e bancos) com latências de poucos milissegundos, reduzindo custos de trânsito IP convencional.

3. Otimização de rotas e desempenho

Você ganha autonomia para decidir qual tráfego sai por qual operadora com base em desempenho real. Por exemplo: direcionar todo o tráfego para a Europa pela Operadora A e o tráfego para os Estados Unidos pela Operadora B.

Critérios do Registro.br para solicitar um ASN

No Brasil, a entidade responsável pela alocação de recursos da internet é o Registro.br (braço executivo do NIC.br e CGI.br). Para obter a aprovação de um ASN corporativo, a empresa deve cumprir requisitos objetivos:

  1. Ser pessoa jurídica constituída no Brasil: possuir CNPJ ativo e regular perante a Receita Federal.
  2. Conexão Multihoming comprovada: comprovar tecnicamente que possui ou está em processo de contratação de links de internet dedicados com pelo menos duas operadoras distintas com Sistemas Autônomos diferentes.
  3. Plano de endereçamento IPv6 estruturado: o solicitante deve obrigatoriamente implantar o protocolo IPv6 em sua rede, recebendo um bloco mínimo padrão (/32 para provedores ou /48 para usuários finais corporativos).
  4. Infraestrutura técnica compatível: possuir roteadores de borda profissionais homologados capazes de manter sessões BGP e gerenciar tabelas de roteamento com memória e processamento adequados.

Exemplo simplificado de sessão BGP de borda

No roteador de borda corporativo, o relacionamento com a operadora é ativado por comandos padronizados de peering BGP. Os ASNs e prefixos abaixo são apenas exemplos (faixas privadas e de documentação); use os valores alocados à sua empresa:

router bgp 65530
  neighbor 198.51.100.1 remote-as 64496
  neighbor 198.51.100.1 description Transit_Operadora_A
  network 203.0.113.0/24

Com a ativação de extensões multiprotocolo MP-BGP (RFC 4760), a empresa estabelece sessões para trocar simultaneamente rotas IPv4 e seu prefixo IPv6 independente alocado pelo Registro.br (ex.: /48) com ambas as operadoras. Dessa forma, todo o tráfego IPv6 da organização mantém resiliência contínua sem depender de renumeração caso um dos enlaces sofra indisponibilidade (veja o artigo Plano de endereçamento IPv6: blocos /48, /56 e /64 por segmento (conteúdo para clientes)).

Quando o investimento se justifica financeiramente?

Adquirir e manter um ASN envolve taxas anuais de manutenção de numeração pagas ao Registro.br, contratação de links IP dedicados e aquisição de roteadores de borda mais robustos. Esse investimento é plenamente justificável quando:

  • A sua empresa hospeda sistemas transacionais críticos em datacenter próprio ou ambiente híbrido.
  • A indisponibilidade de links de dados gera prejuízos imediatos superiores a dezenas de milhares de reais por hora.
  • A organização opera unidades industriais ou logísticas distribuídas que precisam comunicar-se de forma contínua com a sede central.

Precisa de ajuda?

Para planejar o projeto de aquisição de ASN, documentação perante o Registro.br e implantação de roteamento BGP na sua empresa, consulte nossos especialistas na página de arquiteturas.

Fontes

Tecnologias com que trabalhamos

Ver todas